A Era do “Sabor Design” e a “Gourmetização” do vazio. Quando o Hype engole a Técnica

Vivemos na era do “Sabor alguma coisa”. O queijo não é mais queijo, virou ‘composto lácteo’. O chocolate virou ‘cobertura sabor chocolate’. O biscoito perdeu a essência e virou uma mistura industrial. O produto real desapareceu, restando apenas a estética e o aroma artificial.

Essa tendência de “parece, mas não é” chegou ao Design Gráfico.

Analisando o recente (e polêmico) rebranding da Mansão Maromba, uma coisa precisa ficar clara já de início: o objetivo nunca foi resolver um problema de imagem, mas gerar comentários. O Design virou apenas um acessório para o engajamento.

A embalagem é brilhante, grita alto, gera polêmica, mas quando analisamos a essência técnica… o projeto soa quase como uma provocação deliberada à engenharia visual:

1) Problemas de Traço e Orientação: A marca aposta em texturas de “sujeira” e traços excessivamente finos. No mundo real, isso gera uma crise de reprodutibilidade técnica óbvia. Ao reduzir a marca (para um rodapé, um ícone de app ou um carimbo), esses detalhes somem ou viram borrões.

2) Perda de Insight Visual: O design funcional precisa de Gestalt, leitura rápida e clara. O excesso de informação causa uma perda direta desse insight. O cérebro precisa “decifrar” a imagem em vez de absorvê-la instantaneamente.

3) Contraste e Aplicação Cromática: Nas garrafas renderizadas, vemos a marca lutando contra fundos complexos (nebulosas, gradientes). A falta de uma “área de respiro” ou de uma versão chapada sólida faz com que a marca não pouse. Ela briga. Sem contar que a conversão para monocromia (preto e branco) seria desastrosa, pois a leitura depende inteiramente de efeitos de volume e cor.

4) A “Gourmetização” do Amadorismo: A estética escolhida tenta passar agressividade e energia, mas falha nos fundamentos. É o equivalente visual ao “sabor queijo”: tem a cor do queijo, o cheiro artificial do queijo, mas não tem a nutrição do leite.

Ao sacrificar os fundamentos do Design (função, escala, aplicação) em nome do barulho momentâneo, troca-se “Essência” pela “Aparência”. Criando um “Sabor Rebranding”: tem gosto de polêmica, cheiro de novidade, mas nutre a marca a longo prazo?

O Marketing do Hype

Por outro lado, no quesito Marketing, o objetivo foi cumprido: gerou o hype.

É impossível ignorar o contexto: Tivemos uma campanha massiva prometendo R$ 100 mil, alimentando a expectativa de designers sérios que enviaram propostas técnicas, para, no final, nenhuma ser escolhida.

A opção vencedora (assinada por Shibata) não foi técnica, foi baseada em afinidade e capacidade de gerar alcance. Isso reflete um movimento maior de mercado, confirmado quando vemos figuras como o próprio Toguro assumindo a cadeira de ‘Head de Comunicação’ da Cimed.

O recado é claro: o especialista técnico está dando lugar ao especialista em Hype. O fundamento e a técnica agora perderam o trono para o Buzz e o Fuzz. A prioridade deixou de ser a qualidade da entrega e virou puramente o engajamento e o alcance, não importa se falam mal, desde que os números subam.

No fim do dia, fica difícil julgar categoricamente o certo ou o errado. Afinal, Design é, antes de tudo, função. Se a função aqui era vender o caos e dominar a pauta, o objetivo foi atingido.

Esse caso é apenas um reflexo fiel do nosso tempo: uma era onde o algoritmo amplifica a polêmica e o alcance dita as regras. A técnica, a harmonia e a ‘essência’ tornaram-se irrelevantes diante da necessidade voraz de alimentar a máquina do engajamento.